Eu queria um cigarro, mas eu não fumo. Eu queria uma dose de Whisky, mas eu não bebo. Eu queria alguém que me amasse, mas eu não sinto. Vivo em um eterno querer, até mesmo das coisas que não quero ter. Talvez eu queira a dor só pra ver se sinto algo. Talvez eu mesma me coloquei nesse vazio porque é mais fácil. Eu visto vontades que não me servem, e cicatrizes que não me pertencem. Talvez eu seja uma farsa, mas talvez só em assumir isso eu possa não ser tão falsa quanto penso. Carrego versões minhas que nunca escolhi ser, mas dizem que tudo é uma escolha. E talvez realmente seja. Talvez eu tenha escolhido calar, tenha escolhido ceder, tenha escolhido me esconder atrás de quem esperavam que eu fosse. E no fim, a ausência de escolha também foi uma decisão. Uma covardia disfarçada de sobrevivência. Um “tanto faz” que virou minha maior maldição. Eu me tornei um mosaico de concessões, E enquanto tento me decifrar com os olhos dos outros, fico cada vez mais ilegível para mim. Sou um enigma que se recusa a ter resposta, mas que insiste em ser lido com a mais absoluta certeza. Ouvi que a verdade é uma construção, mas a minha parece feita de ruínas. Tento remontar os escombros, como se dali pudesse surgir alguma identidade. Por causa das minhas incertezas, deixo que os outros escolham por mim, para ter a quem culpar. Arranho as paredes de minha mente em busca de uma saída que talvez nem exista. Repito como um mantra para mim mesma, eu não sou triste, só estou cansada. A sensação de estar perdida é o que me dá a certeza de que estou viva, mas também é oque me dá a incerteza de não saber se quero continuar assim. Meus sonhos são confusos, quero ter todas as vidas em uma só. Minha poesia nasce da dor, porque não existe beleza sem sofrimento, criar é um ato de coragem, porque escrever me faz perceber quem realmente sou, sem mentiras, sem histórias inventadas, apenas eu e minha verdade nua e crua. Miserável, mas real. E por fora minha autenticidade continua imaculada. Completamente pura. Mas meu interior arde como se estivesse em chamas. Sei que já estou manchada. Sou um pecado vivo escondido atrás de carne e osso. Não sou religiosa, e digo isso porque ainda descreio de muitas coisas que para alguns podem parecer simples e óbvias, como o inferno, não precisei morrer para conhecê-lo, bastou eu nascer. Talvez o destino quisesse que eu já tivesse uma prévia do que é a vida real ou talvez eu use a superstição para tentar justificar o pesadelo kafkiano que me assombra. Mas apesar de tudo, hoje sigo viva, e, de certa forma, inteira. E isso diz mais que qualquer pensamento meu. O céu está de um azul quase celestial, o sol continua brilhando, ouço os pássaros cantando em uníssono, e meu gato está dormindo em um feche de luz na varanda. Se hoje me perguntassem se tenho algum motivo para não querer continuar aqui, eu não saberia citar um sequer. Hoje eu consegui achar conforto na minha tristeza, um cantinho bem no fundo que há felicidade genuína e sem esforço. Em dias assim, a vida pode me dar esperança de que vale a pena estar viva. Mas amanhã posso mudar de ideia. Essa é a ironia e inconstância da vida. No entanto, ainda tenho o poder da dúvida, e no fim é isso que importa, porque é por isso que continuo na vertigem da existência.
Discussão sobre este post
Nenhuma publicação

